Mal de altitude em Cusco — minha história
Eu corro meias-maratonas. Te conto isso não para me gabar, mas porque foi exatamente o motivo de eu ter ignorado todos os avisos sobre altitude e acabado, na minha segunda noite em Cusco, sentado no chão frio de um banheiro às 2h me perguntando se precisava de um médico. O soroche, como chamam o mal de altitude por aqui, não confere a sua frequência cardíaca em repouso antes de decidir arruinar a sua noite.
O erro que cometi antes mesmo de chegar
Voei direto de Lima, que fica ao nível do mar, para Cusco, a cerca de 3.400 metros. É um salto brutal para o corpo fazer em noventa minutos. Pior: eu tinha reservado uma agenda apertada que me colocava num tour pelo Vale Sagrado no dia dois, porque eu tinha me convencido de que o conselho de «pegar leve na chegada» era para gente menos ativa do que eu.
Também bebi uma cerveja na noite da chegada. Uma cerveja, para comemorar. Mais tarde eu leria no guia de mal de altitude que o álcool é uma das piores coisas que você pode fazer nas primeiras 48 horas, porque desidrata você e mascara os primeiros sintomas. Na hora me senti bem. Confiante, até.
Como de fato começou
O primeiro sinal não foi dramático. Voltando ao hostel depois do jantar na primeira noite, a leve ladeira das ruas de Cusco me deixou estranhamente sem fôlego, do jeito que você se sentiria correndo depois de uma noite mal dormida. Pus a culpa no longo dia de viagem. Dormi mal, acordando várias vezes ofegando um pouco, o que agora sei que é clássico — sua respiração diminui quando você dorme e o ar rarefeito piora isso.
No dia dois fui ao tour do Vale Sagrado mesmo assim. Teimoso. No meio da tarde, em Ollantaytambo, eu tinha uma dor de cabeça pressionando atrás dos dois olhos, me senti enjoado no ônibus e não consegui encarar o almoço que estava incluso. Disse a mim mesmo que era a estrada sinuosa. Não era a estrada sinuosa.
A noite em que ficou ruim
De volta a Cusco naquela noite, escalou. Uma dor de cabeça latejante que o paracetamol não tocava. O enjoo que virou vômito de verdade. A sensação horrível de não conseguir respirar fundo por mais que eu inspirasse. E uma espécie de névoa tonta e desconectada, como se eu tivesse tomado três taças de vinho sem ter bebido nenhuma. Por volta das 2h eu estava no chão do banheiro porque era o único lugar fresco e plano que parecia estável.
O que mais me assustou foi não saber onde estava a linha entre «péssimo, mas normal» e «genuinamente perigoso». Para que conste, os sinais de alerta que significam que você precisa descer e procurar ajuda médica são: confusão, tosse com catarro espumoso ou rosado, falta de ar mesmo em repouso completo e incapacidade de andar em linha reta. Eu não tinha nenhum deles. O que eu tinha era um mal agudo das montanhas de manual — miserável, mas não uma emergência. Saber dessa distinção de antemão, que o guia de altitude explica com clareza, teria me poupado muito pânico.
O que de fato ajudou
A equipe noturna do hostel estava calma e claramente acostumada com isso. Eis o que genuinamente fez diferença, em ordem:
Chá de coca, constantemente. O hostel tinha uma garrafa térmica disponível a noite toda. Não é um milagre, e a ciência por trás dele é modesta, mas o líquido quente e o leve efeito estimulante me ajudaram a continuar bebendo água sem vomitar de novo. Eu explico a versão realista do que a coca faz e não faz no texto sobre chá de coca e remédios — em resumo, ajuda um pouco, não é uma cura.
Água, muito mais do que parecia natural. A desidratação piora tudo, e o ar seco da montanha desidrata você mais rápido do que você acreditaria. Forcei uns três litros ao longo da noite.
Não fazer absolutamente nada no dia seguinte. Esse foi o grande lance. Cancelei tudo no dia três e fiquei perto do hostel. Naquela noite a dor de cabeça tinha caído de um nove para um três.
Pílulas de soroche. A farmácia duas portas adiante me vendeu uma cartela de «pílulas de soroche» com acetaminofeno e cafeína por S/10. Honestamente, acho que o descanso e a água fizeram a maior parte do trabalho, mas elas aliviaram a dor de cabeça. Um aviso rápido: vendem muito produto de altitude superfaturado e duvidoso para turistas em Cusco, e eu tinha lido o resumo sobre golpes de remédios de altitude antes de comprar algo chique — quase paguei S/90 por um «turbinador premium de oxigênio» que era, pelo que pude apurar, açúcar.
O que eu diria ao meu eu do passado
Se eu pudesse voltar, faria três coisas diferentes. Primeiro, passaria minhas primeiras uma ou duas noites mais embaixo, no Vale Sagrado ao redor de Urubamba, a cerca de 2.800 metros, e só então subiria para Cusco. Dormir mais embaixo no começo é o truque isolado mais eficaz e é o que hoje recomendo a todo mundo. O plano de aclimatação explica exatamente como sequenciar isso.
Segundo, perguntaria ao meu médico sobre acetazolamida (Diamox) antes da viagem. Não tomei porque achei que não precisaria. Um amigo que foi no ano seguinte tomou como prevenção e passou ileso. É um remédio de receita com efeitos colaterais próprios — formigamento nos dedos, bebidas com gosto efervescente — então é uma conversa para ter com um médico, não uma automedicação. Mas eu queria ter tido a opção na minha bolsa.
Terceiro, e mais simples: eu não teria feito nada no dia um e no dia dois. Nada de tour. Nada de cerveja. Só caminhadas lentas e água. O Vale Sagrado ainda estaria lá no dia quatro, e eu teria de fato aproveitado em vez de ficar quietamente passando mal num ônibus diante de algumas das ruínas mais bonitas do país.
Isso arruinou a viagem?
Não, e essa é a parte honesta. Perdi efetivamente dois dias, o que doeu numa viagem de dez dias. Mas, depois que me aclimatei direito, o resto de Cusco e o Vale Sagrado foram extraordinários, e quando fiz uma trilha mais para o fim da viagem eu me sentia forte. O seu corpo se adapta, sim — só não dá para apressar, e ele não liga para quantas meias-maratonas você já correu. Respeite a altitude, dê a ela os primeiros dois dias, e você provavelmente evitará por completo o chão do banheiro.
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