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Dos Andes à Amazônia — um diário de Tambopata

Dos Andes à Amazônia — um diário de Tambopata

A coisa que ninguém te conta sobre voar de Cusco até a Amazônia é o quão rápido o mundo muda. Num momento você está olhando para baixo, para montanhas marrons e sem árvores, e no seguinte, depois de um voo de trinta minutos da LATAM, você desce do avião em Puerto Maldonado e o ar te atinge como uma toalha quente e molhada. Passei de precisar de um casaco de lã a suar pela camisa antes mesmo de chegar à esteira de bagagem.

Por que sequer incluí a selva

Quase não incluí. A Amazônia parecia uma viagem à parte, e eu temia que ela diluísse os Andes. Mas eu tinha três dias sobrando depois de Cusco e não parava de ler que a reserva de Tambopata, alcançada a partir de Puerto Maldonado, era um dos trechos mais acessíveis de floresta tropical genuína da América do Sul. O guia da Amazônia a partir de Cusco me convenceu de que dava para fazer como um acréscimo curto em vez de uma expedição separada, então reservei uma estadia de três dias e duas noites num lodge e um voo de uns US$80, e fui.

Uma nota para quem está pesando isso: não tente fazer a Amazônia em dois dias. O primeiro e o último dia são em grande parte viagem, então duas noites é o mínimo realista para de fato estar na floresta por um dia inteiro. Se você puder esticar para quatro dias, faça.

Dia um: o rio e o primeiro jacaré

Puerto Maldonado em si é uma cidade quente e baixa, de motos e cheiro de combustível de dois tempos. O transfer do lodge me pegou no aeroporto, paramos no escritório deles para deixar a maior parte da minha bagagem num armário (você leva só uma bolsa pequena para a selva), e então dirigimos até um porto no rio Tambopata e subimos numa longa canoa motorizada.

O passeio de barco faz parte da experiência e durou cerca de uma hora e meia. Eu tinha feito a mala errada — mangas e calças compridas são o caminho, tanto para o sol quanto para os insetos depois — e queimei os antebraços na primeira hora. Aprenda comigo e leia o que levar para a Amazônia antes de ir; a lista parece exagerada até você estar lá dentro.

Vimos a nossa primeira capivara num barranco de lama em vinte minutos, gorda e indiferente, e um pequeno jacaré tomando sol de boca aberta. O guia desligou o motor e ficamos à deriva. Aquele silêncio, quebrado só pelos pássaros e pelo rio, foi o primeiro momento em que soube que eu tinha feito certo em ir.

Dia dois: o barreiro das araras e muita espera

Esse é o dia para o qual as pessoas reservam a viagem, e quero ser honesto sobre ele. Acordamos às 4h30, embarcamos no escuro e chegamos ao barreiro antes do nascer do sol. Um barreiro, ou collpa, é um paredão de barranco onde papagaios e araras se reúnem para comer a argila rica em minerais, supostamente para ajudar a neutralizar toxinas da dieta.

Aqui está a parte honesta: nem sempre acontece. A vida selvagem não se apresenta no horário. Ficamos sentados num esconderijo por quase duas horas e, nos primeiros noventa minutos, foi um fiapo de pequenos periquitos e muita paciência. Então, de uma vez só, uma onda de araras escarlates e azul-e-amarelas desceu num barulho e numa cor para os quais eu genuinamente não estava pronto. Durou talvez vinte minutos e então elas se foram. Vinte minutos extraordinários por duas horas frias de espera. Eu diria que valeu a pena, mas vá sabendo que é uma aposta, não uma garantia.

O resto do dia dois foi uma caminhada pela floresta com o guia apontando as rodovias das formigas-cortadeiras, uma tarântula num buraco que ele atraiu para fora com um graveto, e castanheiras-do-pará do tamanho de prédios. Remamos num lago de meandro ao entardecer procurando ariranhas e vimos duas, mais uma cigana, que é o pássaro de aparência mais estranha que já encontrei. O guia de Tambopata tem um resumo realista do que você pode e não pode esperar ver, e bateu de perto com a minha experiência.

Sobre a reserva e o que paguei

Reservei meu pacote do lodge por meio de uma operadora em vez de chegar e arranjar tudo em Puerto Maldonado. Há uma faixa real aqui — lodges básicos, de padrão médio e alguns genuinamente chiques, no fundo da reserva, que custam várias vezes mais. O meu era solidamente de padrão médio.

Se você quer uma opção de partida comparável, esta viagem de três dias e duas noites à selva de Tambopata é o tipo de pacote que fiz, cobrindo o transfer de barco, o lodge, as refeições e as atividades guiadas. O meu saiu por uns US$330 pelos três dias, incluindo tudo menos o voo e as bebidas. Para uma versão mais longa e profunda, há uma opção de quatro dias e três noites que te leva aos melhores barreiros; em retrospecto, eu teria escolhido a noite extra.

Um aviso prático sobre dinheiro: Puerto Maldonado tem caixas eletrônicos, mas eles são pouco confiáveis, e o bar do lodge só aceitava dinheiro vivo para cervejas e água. Leve mais soles de Cusco do que você acha que precisa.

O que me surpreendeu

O calor e a umidade eram implacáveis de um jeito que as fotos não transmitem. Ao meio-dia eu estava encharcado e a lente da minha câmera embaçava toda vez que saíamos do ar-condicionado para o ambiente aberto. Os insetos foram menos problema do que eu temia — roupas compridas e repelente deram conta dos mosquitos, embora os borrachudos perto do rio tenham deixado meus tornozelos coçando por uma semana.

A maior surpresa foi o quão escuras e barulhentas são as noites. O lodge funcionava com energia solar que se desligava por volta das 21h, e a parede de barulho de insetos e sapos depois de escurecer era algo que eu nunca tinha ouvido. Fiquei deitado embaixo do mosquiteiro escutando aquilo, suado e feliz, de um jeito que não esperava de uma viagem que quase pulei.

Eu faria de novo, a partir de Cusco?

Sim, mas com a opção de quatro dias e expectativas mais brandas sobre o barreiro. O contraste entre o ar fino e frio de Cusco, a vizinha montanhosa de Puerto Maldonado, e o verde gotejante da reserva de Tambopata é, por si só, uma das melhores coisas de viajar pelo Peru. Você pode estar fotografando muros incas numa manhã e observando ariranhas caçarem peixes dois dias depois. Só vá sabendo que a selva mantém seu próprio horário, faça a mala para suor e chuva ao mesmo tempo, e dê a ela mais dias do que você acha que precisa.