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De Cusco a Arequipa por terra — um relato de viagem

De Cusco a Arequipa por terra — um relato de viagem

Depois de duas semanas em altitude em Cusco e no Vale Sagrado, eu queria descer para algum lugar um pouco mais quente e um pouco mais tranquilo antes de voar de volta para casa a partir de Lima. Arequipa, a elegante «cidade branca» do Peru, a uns mais amenos 2.300 metros, encaixou na perfeição. A única dúvida era como chegar lá, e fiz a escolha levemente teimosa de ir por terra em vez de voar.

A decisão: ônibus ou avião

Voar de Cusco a Arequipa é rápido, mas indireto — a maioria dos voos faz escala em Lima, o que transforma um pulo curto em meio dia de aeroportos e custa mais do que você imaginaria. Um voo direto, quando existe, estava saindo por uns US$90 quando olhei. O ônibus noturno, por outro lado, custava de S/90 a S/130 (cerca de US$27 a US$38) dependendo da classe da poltrona, e partia à noite e chegava de madrugada, me economizando uma noite de hospedagem.

Pesei tudo usando o resumo do transporte de Cusco a Arequipa, que apresenta as trocas de tempo e custo com honestidade. O ônibus leva cerca de dez horas. O fator decisivo para mim foi que a rota sobe pelo altiplano passando por lagos e planaltos que eu de outra forma nunca veria, e eu sou apaixonado por uma estrada longa.

O ônibus noturno, honestamente

Reservei uma poltrona «cama» com a Cruz del Sur, que é a operadora premium, por uns S/120. As poltronas reclinam quase totalmente, há um cobertor e um travesseiro, e eles filmam você embarcando e conferem a etiqueta da sua bagagem, o que pareceu tranquilizador num ônibus noturno pelas montanhas. Há uma refeição básica, um banheiro a bordo e as janelas são fumê.

Dormi? Por trechos. A estrada pelo altiplano é alta — cruza passagens acima de 4.500 metros — e acordei uma vez com a familiar dor de cabeça da altitude que pensei ter deixado para trás em Cusco, um lembrete de que a própria jornada vai mais alto do que as cidades nas duas pontas. Bebi água e passou. Quando a luz cinza apareceu, já estávamos descendo em direção a Arequipa com o cone de neve perfeito do vulcão El Misti preenchendo o para-brisa, e qualquer mau humor pelo sono perdido evaporou.

Uma nota prática: leve agasalhos para dentro da cabine, não na bagagem do compartimento. O altiplano à noite é genuinamente frio e o aquecimento do ônibus era irregular. E reserve as poltronas do andar de cima, na frente, se puder — a vista ao amanhecer é o ponto alto.

Chegando em Arequipa

O terminal rodoviário fica a um táxi curto e barato do centro histórico — paguei S/15 depois de combinar o preço antes de entrar, o que você deve sempre fazer. Fiz check-in numa pequena pousada perto da Plaza de Armas e dormi por três horas, porque ninguém de fato dorme num ônibus noturno.

A primeira coisa que me impressionou em Arequipa foi a luz. Os prédios do centro antigo são construídos em sillar, uma pedra vulcânica pálida que brilha quase branca ao sol, daí o apelido. Depois da pedra escura e dos paralelepípedos íngremes de Cusco, parecia aberto e claro e, francamente, mais fácil de respirar.

O que fiz em dois dias

A Plaza de Armas e a catedral. A praça principal de Arequipa é, eu acho, mais bonita que a de Cusco — mais larga, ladeada por colunatas com arcos, com a catedral ocupando toda a extensão de um lado. Tomei um café numa sacada de segundo andar de frente para ela por S/14 e observei a cidade despertar.

Mosteiro de Santa Catalina. Esse foi o ponto alto e valeu a entrada de S/45. É um vasto convento murado, uma cidade dentro da cidade, com vielas pintadas de terracota profundo e azul cobalto que mal mudaram em séculos. Passei quase três horas perambulando por ele e nem notei o tempo. Vá cedo ou no fim do dia para fugir da luz dura do meio-dia e dos grupos de turistas.

Comer. Arequipa leva sua comida a sério, e a especialidade local é a picantería — um restaurante tradicional que serve pratos regionais apimentados. Comi rocoto relleno, uma pimenta recheada apimentada, e um chupe de camarones, um caldo de camarão de rio, num lugar chamado La Nueva Palomino por cerca de S/60 incluindo uma chicha. Foi uma das melhores refeições da viagem toda e uma cozinha completamente diferente da comida andina lá em cima, em Cusco.

Cusco versus Arequipa, já que todo mundo pergunta

Tinham me dito que as duas cidades são rivais e que você tem que escolher uma favorita. Não acho que você precise — elas são diferentes. Cusco é mais densa, mais alta, mais saturada de história inca e, honestamente, mais turística e mais cansativa. Arequipa é mais grandiosa de um jeito colonial, mais baixa e mais leve para o corpo, e parece mais uma cidade peruana de verdade que por acaso é bonita do que um lugar construído em torno dos visitantes. A comparação Cusco vs Arequipa acerta nas trocas se você está escolhendo entre as duas. Se puder, faça as duas. Se só puder fazer uma e a altitude te preocupa, Arequipa é a introdução mais suave.

Arequipa também é a base de partida para o Canyon do Colca e seus condores, que fui fazer em seguida — mas essa é outra história.

A rota por terra valeu a pena?

Para mim, sim — mas com ressalvas. O ônibus me economizou dinheiro e uma noite de hotel, e a descida ao amanhecer em direção ao El Misti é uma lembrança que eu não trocaria. Mas perdi uma noite de sono decente e um pedaço da manhã seguinte me recuperando, o que numa viagem curta você talvez não tenha como perder. Se o seu tempo é apertado e o seu orçamento não é, voe. Se você tem um dia flexível e gosta da poesia de uma estrada longa pelos planaltos, pegue o ônibus noturno, reserve a poltrona cama com uma empresa de boa reputação e leve um agasalho para dentro da cabine. Eu faria de novo exatamente da mesma forma.